sábado, 22 de maio de 2010

O nascimento de Narciso


Enfim foi anunciada a abertura das inscrições para o próximo Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá. Para alegria de muitos e para tristeza de outros que ainda não perceberam a importância deste evento para o fomento da atividade audiovisual na região. Como é o caso de uma aspirante a cineasta, que o pouco que sabe aprendeu como aluna nas oficinas produzidas pelo mesmo Festival, nos filmes produzidos pela equipe e insiste em multiplicar um discurso equivocado e caduco sobre as contribuições deste evento. Mal sabe a moça que o seu curta de estreia está semelhante ao Chatô de Guilherme Fontes. Ou seja: um presente caro que consumiu todo o recurso público, tem credores ainda batendo à porta e em breve completa uma década de realização. E nada dos filmes nas telas!

Diferente desta, um grupo de produtores do audiovisual do Estado mostrou de forma contundente que o sol nasce para todos. Os criadores constroem caminhos luminosos próprios – sem sombras – e principalmente porque juventude não rima necessariamente com irresponsabilidade. “Colapso Narciso” é uma novíssima produção em vídeo que estreou este mês em espaços alternativos da cidade, dentre estes o Cineclube Coxiponés. Com a direção talentosa de Maurício Falchetti, o curta se desenvolve a partir de um roteiro interessante e bem ritmado de Felippy Damian onde explora uma faceta muito presente na vida dos jovens urbanos, o narcisismo. É como se reinventasse o mito e a partir de efeitos óticos do cinema - o ilusionismo da imagem - o mundo fosse uma representação repetitiva e monocromática do ser. Reduzido irremediavelmente a um espelho do indivíduo até que a máscara revela outra identidade. Tema um tanto complexo tratado de forma séria e bem humorada por uma equipe supreendente jovem, como a produtora Giulia Medeiros. Sinais visíveis de amadurecimento que se percebe na montagem, música, e desde a escolha das locações. Diferentemente das produções universitárias – onde a presença marcante do campus da UFMT torna-se um personagem, em “Colapso Narciso” um parto desta matriz é realizado através de grandes planos que revelam a cidade. Cuiabá, sua arquitetura e iconografia. Conciliação com o passado que também se explicita na sequência da corrida no centro histórico. Trata-se de uma citação ao próprio cinema mato-grossense, ao curta-metragem “Baseado em Fatos Reais” de Bruno Binni. A atuação do experiente ator Caio Mattoso, ainda que este apareça no momento mais dramático da história, revela um apurado estudo e preparação de elenco. Os poucos recursos da produção que não foram contornados de forma criativa pelo diretor tornando-os facilmente perceptível na imagem registrada, no caso a iluminação, não reduzem o valor do trabalho. Prazerosa é esta sensação de assistir e acompanhar uma produção que amadurece na experiência de cada trabalho e nos permite constatar que os jovens produtores do audiovisual em Mato Grosso estão em movimento. Apesar do desmantelamento do setor. Torçamos pelas células produtivas! Luiz Carlos de Oliveira Borges, cineasta, pesquisador e servidor da UFMT, escreve todas às sextas no Folha

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